HOMOSSEXUALIDADE
23/9/2020

A palavra “homofobia” está, hoje, em grande evidência ( estamos em 2020 ).
E com toda razão.
Ela define bem uma das maiores distorções de uma sociedade doente.

Eu creio que todos nós, desde crianças, apresentamos traços de homosexualidade.

Qual de nós, garoto ou garota, não tivemos nossos heróis ( ou heroínas ),
aos quais dedicamos a mais pura admiração, o mais puro amor e com eles
nos identificamos tão intensamente?

Isso, na minha opinião, é homossexualismo.
Platônico, inocente, mas é.

Entre os meninos, fica mais evidente, por causa da adoração pelos heróis masculinos,
tipo Batman, Mandrake, Zorro, Superman, etc.
E, também, os heróis do cinema:
caubóis, piratas, aventureiros, guerreiros medievais, etc.

Quanto às meninas, nem tanto.

É natural a gente ver duas meninas de mãos dadas.
Dois meninos, nem pensar.

O que “ confunde” o conceito de homossexualismo, penso eu, é o sexo.
O contato físico. As vias de fato.

Vale lembrar que o ser humano é o único animal que pratica sexo apenas por prazer.
E caça por diversão. ''

Os irracionais o fazem para procriar e para se alimentar.

O grande compositor Armando Cavalcanti, do alto dos seus 75 anos, certa vez
me disse uma frase que me ficou na memória:
“O amor existe em função da prole”.

Isso tem um fundo de verdade, porque a ciência comprovou, até agora,
que se a vesícula seminal for retirada do homem, ele perde a ereção normal.
E a capacidade de procriar.

Mas, como negar o prazer do sexo pelo sexo?
Fazer sexo é indescritível, uma maravilha!
Sexo com amor, então, é o máximo!
Como e com quem, é uma escolha pessoal.
Cada um procura o que melhor lhe convém.

Acredito, apenas,  em duas leis:
“não ofender, nem prejudicar”.
Se essas leis forem, sempre, respeitadas, a gente pode fazer o que quiser.
Ninguém pode se meter.

Eu conduzo o meu destino.
Minhas preferências são minhas.
A Sociedade ( hipócrita ) condena o homossexualismo em nome da “moral”.
Podem até dizer que é “antinatural”.
Talvez seja.
Imoral não é.
Nem prejudicial.

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Quando fiz o musical “Arco Iris“, vivi três experiências incríveis:

Uma :

Eu dividia o mesmo camarim com o grande ator Carlos Leite.
Chamá-lo de grande é pouco.
Gênio, seria demais.
Talvez fosse melhor “Fora de Série”,
Ele era.

Uma noite ele me tomou como confidente e me contou que estava apaixonado
por uma pessoa, um cara, que não lhe dava bola.
Não me disse quem era e me pediu conselhos de como agir.
Eu, na maior boa vontade, o aconselhei a abrir o jogo e revelar seus sentimentos.
Ele disse que não tinha coragem e preferia sofrer em silêncio.
Respeitei sua conduta e não falamos mais sobre isso.

Anos mais tarde eu fiquei sabendo, por terceiros, que o “cara”,
objeto do amor do Leite, era eu.
Tomei um susto, mas ( cá entre nós ), fiquei vaidoso.

Outra:

O “Arco Iris tinha 2 coreógrafos : O Luciano Luciani
( que, depois da temporada, foi dirigir a RAI, a TV oficial da Itália ).

E o Lenny Dale.

Abro um parêntesis pra falar do Lenny:

Sua influência na Música brasileira foi imensa..
Elis Regina e Maria Bethânia foram algumas das “influenciadas” por ele.
Principalmente no gestual..
Seu carisma e experiência internacionais foram decisivos para o nosso
“show business”.

Ele, praticamente, recriou os “pockets shows”.

Quando ele fez seu primeiro show no Brasil, no Bottles – Beco das garrafas,
tive a honra de escrever pra ele ( a seu pedido ) o samba “Saudade”,
palavra que só existe no Brasil.

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Um dia o Lenny me chamou num canto e me disse que sentia atração sexual por mim.
Eu fiquei completamente desnorteado, pois nutria por ele uma admiração profunda,
não só como profissional mas, também, como pessoa.

Depois de passado o susto, quando tive a oportunidade, chamei-o pra sair e,
entre um cafezinho e outro, tive a chance de explicar a ele uma coisa que eu,
ainda, não tinha explicado nem a mim mesmo:

Esse tipo de pensamento sobre sexo nunca havia me ocorrido.

Então (sinceramente ) confessei a ele:

“Lenny, se eu tivesse de fazer sexo com outro homem, seria com você,
por que eu o amo, adoro, admiro e respeito.
E com todo carinho.
Saiba que se, um dia, eu mudar de idéia, você será o primeiro a saber “.

Ele riu, me acariciou o rosto e selamos nossa amizade com um grande abraço.

E me deu provas disso quando, em São Paulo ( onde eu morava ),
sofreu um acidente de automóvel e a primeira pessoa pra quem ele ligou fui eu.

A terceira:

No elenco do “Arco Iris” havia um bailarino, o Mauro, que se aproximou
de mim e ficamos muito amigos.
Estávamos sempre juntos.
Depois do espetáculo saíamos pra jantar e conversar.
Eu gostava muito dele.
Muitas vezes ele foi almoçar na casa de minhas irmãs, com quem eu morava.
Ele era como se fosse da família.

Um dia, ele me falou:
“Silvio, nós não vamos continuar a sair juntos“.
Eu, surpreso, perguntei porque.
Ele disse: “porque as pessoas estão falando que nós estamos tendo um caso,
não é verdade e eu não quero isso pra você”.
Eu falei que não ligava para o que pensassem, que a nossa amizade era mas importante,
que dissessem o que quisessem, eu não me importaria.
Mas ele ficou irredutível e nunca mais saímos juntos.

Até hoje sinto saudade do Mauro.
E raiva do maldito preconceito social.

Pra terminar, remetendo ao início lá em cima, quero dizer que acredito que
todos, homens e mulheres, temos dentro de nós o germe da homossexualidade,
apenas aguardando a oportunidade para “saírmos do armário”, como dizem.

Se bem que, para alguém como eu, que já passou dos 80 anos,

é bastante improvável.


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